sábado, 16 de fevereiro de 2013

Vergonha Alheia...



Já faz algum tempo que tenho vontade de escrever sobre esse assunto, mas não me sentia suficientemente motivado  para depositar aqui estas poucas palavras sobre algo tão incompreendido.

Nasci e cresci num ambiente onde a experiência da fé sempre foi muito importante, porém contundente. Dos dois lados da minha família a religiosidade sempre esteve no meu cotidiano e eu me via entre dois polos constantemente. A família do meu pai sempre foi muito católica. Minha avó paterna era bem engajada nas questões da paróquia católica na pequena cidade onde morava. Quando eu passava minhas férias na casa dela, sempre a via lendo a Bíblia com o terço ao lado, antes de dormir. Meu avô, por parte de mãe, era pastor evangélico. Converteu-se ainda jovem e aceitou o chamado pastoral já depois de casado. Ele visitava as igrejas que pastoreava a cavalo ou de bicicleta porque não tinha dinheiro para comprar um carro. Tempos difíceis aqueles!

O casamento dos meus pais levou um tempo para ser aceito pelas duas famílias. Havia meio que um ar de Montecchio e Capuleto na história deles. A cerimônia foi realizada por um padre e um pastor (meu avô) ao mesmo tempo. Desde muito novinho sempre passeei nos dois ambientes: católico e evangélico sem qualquer problema. Às vezes ouvia tanto um lado como o outro apontarem os motivos da fé que os movia.

Aprendi a respeitar e ouvir pacientemente os pontos de vista que eram diferentes do meu e responder com sinceridade às perguntas que me faziam e fazem sobre a fé que professo. De lá pra cá, sou a terceira geração nesta família protestante (e de pastores)...

Meu avô foi pastor em Anta, uma cidade bem pequena que fica na divisa entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde a briga entre protestantes e católicos era sempre muito acirrada. Em 1960, quando ele chegou nessa cidade, foi até o padre e se apresentou como o novo pastor designado para a cidade. O nível de amizade entre os dois cresceu e chegou a um ponto surpreendente quando o alto-falante da igreja católica queimou e meu avô, contrariando o clima de embate entre as igrejas, emprestou o alto-falante da igreja onde era pastor para o padre anunciar as programações da igreja católica.

Naquela época os alto-falantes eram grandes cornetas, ficavam presos nas torres dos templos e não tinham como ser removidos facilmente. Emprestar o alto-falante significava anunciar a programação da igreja católica com o alto-falante da igreja evangélica, na própria igreja evangélica.

Não preciso dizer que, se naquela época isso já foi muito ousado, imagino que ainda hoje muita gente, dos dois lados, vai mandar alguma pedrada. Mas eu aguento.

Na faculdade de teologia vi esse tipo de pensamento convergente, declarado e explicado de um outro jeito: "quando a gente entra para a igreja evangélica, nos ensinam que os católicos não vão para o céu. É verdade! Muitos católicos não vão para o céu. Mas, por outro lado, é verdade que muitos evangélicos também não vão para o céu." Eu vou além...   Na palavrinha "católicos", sem ofensa, e sem comparação entre as palavras em si, mas só para ampliar o pensamento, eu vou acrescentar: ateus, espíritas, desviados, pagãos, prostitutas, gays e todo tipo de gente que nós (evangélicos) consideramos "pecadores"...

Bem, fiz esse preâmbulo todo para dizer que: dar voz a quem pensa diferente de mim não demonstra que estou em cima do muro ou que mudei de opinião, muito menos que minha fé não esteja firmada na Rocha. Demonstra respeito, vontade de aprender e dar atenção ao outro. Simplesmente ouço todas as coisas, opiniões e maneiras de enxergar a vida, tento me colocar no lugar do outro e absorvo somente aquilo que realmente é bom. O que não é bom deixo pra lá e se, de alguma forma, eu puder contribuir para a outra pessoa crescer e aperfeiçoar sua visão, farei com todo amor e respeito até que ela mesma perceba o equívoco. Desse jeito vou ganhando muitos irmãos de caminhada na fé.

Mas às vezes chega o momento de virar a mesa, como fez Jesus no templo ao expulsar os vendedores e ladrões que se utilizavam da fé do povo para enganar, explorar e enriquecer do ouro do templo. Nem Jesus nem Paulo pegavam leve com os que se diziam religiosos e ofendiam a Deus com sua prepotência, arrogância e autossuficiência ainda que fossem grandes e respeitados líderes religiosos.

Paulo e Jesus davam nomes, sim! Nomes! O que para muitos evangélicos atualmente seria uma afronta pelo que se diz "não toque no ungido" ou "não julgue para não ser julgado". Denunciavam, expunham as feridas da religião, não pela vontade de ganhar exposição, mas por amor ao Evangelho. O verdadeiro Evangelho. Havia grandes líderes que o povo cultuava como representantes e arautos da mensagem de Deus, mas eram apenas lobos em pele de ovelha, raça de víboras e sepulcros caiados. Jesus dizia: "façam o que eles dizem, mas não imitem os seus atos!".

O grande problema hoje é que a maioria do povo está cego, seduzido, entorpecido pela mensagem dos falsos profetas e não consegue discernir este tempo. O evangélico é conhecido hoje muito mais pelo show, pelo mercado, pelo colégio eleitoral, pela força da mídia e da pressão, sem amor e sem reflexão profunda, do que a mudança de vida exigida pelo Evangelho.

Sinto verdadeira vergonha alheia quando vejo um auto proclamado representante evangélico ganhar mídia e projeção muito mais pela polêmica que consegue gerar do que pelo anúncio: "vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados...".

Arrepia-me o fato do povo evangélico e muitos outros simpatizantes defendê-lo e acharem que está se pregando o Evangelho, que o pecado está sendo desmascarado. Pois eu digo que o pecado está sendo desmascarado, sim, muito mais pela "trave" que está no olho do povo evangélico do que pelo cisco no olho de quem está apenas batendo no peito da própria existência, se dizendo um pecador e sem coragem de olhar para o deus (com letra minúscula mesmo) vingativo, negociador e charlatão anunciado nas telas das nossas TVs.

O Jesus da Bíblia não se parece nem um pouco com o Jesus da televisão e dos grandes templos. Só quem está cego e enfadado da religião que se "auto salva" não consegue perceber. Para nossa tristeza e vergonha...

Não se faça de sábio aos seus próprios olhos! No Reino por vir, os últimos, os esquecidos, abandonados, pequeninos e menos proeminentes é que serão os primeiros.


O Deus que se revela aos simples e pequeninos o abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!

Nota importante:
 Jesus ensinou a dar de graça o que recebemos de graça. Se esta mensagem, de alguma forma, lhe fez bem, então provavelmente ela poderá fazer bem para outras pessoas que você conheça. Gostaria de sugerir, se não for constrangimento para você, que compartilhasse e encaminhasse este e-mail para o seu círculo de amigos e conhecidos. Fazendo isto você potencializa, em muito, o alcance da Palavra que já fez tanto bem aos nossos corações.
Leia outros artigos em www.ovelhamagra.com

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Se alguém sofrer ainda amanhã













Eu não entendo o sofrimento.
Aquele sofrimento segredo, oculto, mistério.
Não compreendo estas lágrimas sem explicação.
Largadas quentes que escorrem pelas faces do sofredor.
Ouvi e me voltei: eis um espírito que chorava perto de mim.
Como se fosse sem sentido, sem nexo, sem revelação.

Não entendo o sofrimento-sem-palavras-inexplicável.
Ouvi soluços, num dia frio de inverno.
Ouvi gemidos numa manhã alegre de sol naquele domingo.
E continuei trocando os  passos pelas caminhos da Terra.
Não sei quando vou compreender o sofrimento
Contido entre as lágrimas-quentes-escorrendo-pelas-faces.

Se o sofredor tem a resposta que me explique.
Que a teologia me explique.
Que o oráculo dos tempos me explique.
Por favor é urgente, pois também já chorei 
De sofrimento-e-de-lágrimas-incontinentes.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A Nova Jerusalém: a Cidade de Deus, de Cristo - Parte 09










Arrebatamento 2Cor 12,1-5; Ap 3,1.



“1 É preciso gloriar-me? Por certo não. Todavia mencionarei as visões e as
revelações do Senhor. 
2 Conheço um homem em Cristo que, há quatorze anos foi
arrebatado ao terceiro céu – se no seu corpo, não sei; se fora do seu corpo, não sei
- Deus o sabe; - 
3 Eu sei que esse homem – se no corpo ou fora dele, não sei; Deus
o sabe! – 
4 foi arrebatado até o paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não é permitido
ao homem repetir. 
5 No tocante a esse homem, eu me gloriarei; mas no tocante
a mim, só me gloriarei das minhas fraquezas”  .

    O Apóstolo afirma que há quatorze anos, a contar da data que está escrevendo
essa carta (por volta de 43-44 d.C.), foi arrebatado até o terceiro céu (2Cor 12,2, até o
paraíso (2Cor 12,4). A contagem regressiva nos faz imaginar que esse arrebatamento
teria acontecido em Tarso (At 11,25), depois dos três anos de estada na Arábia (Gl 1,17-
19), ou no início do seu ministério na Antioquia (At 13,2), antes da abertura da missão
aos pagãos.
   Paulo usa uma linguagem apocalíptica do arrebatamento, comum no gênero literário
da visão, na revelação ou conhecimento das coisas do alto. Ele é arrebatado, não
sabe se seu corpo também foi, por isso afirma que só Deus sabe se também o corpo acompanhou
o espírito (2Cor 12,2). A incerteza de como acontece a revelação manifesta
a certeza de que não acontece de modo racional, material, fisicamente palpável. Esse
tipo de revelação acontece no êxtase místico, mas nem por isso deixa de ser verdadeiro
e autêntico.
    Discursar sobre os estágios celestes era uma prática rabínica conhecida. Havia
até o sétimo céu, mas o mais comum era determinar os três primeiros: a atmosférico era
o primeiro, o dos astros era o segundo e a morada de Deus era o terceiro. Aquilo que
Paulo ouviu, nessa transmigração celeste, foram palavras inefáveis, inenarráveis (2Cor
12,4). Segundo os rituais de iniciação nos mistérios, as coisas percebidas nesses estágios não deveriam ser comunicadas aos não-iniciados, visto que não as entenderiam.
Se o arrebatamento era uma questão de glória, honra ou orgulho pessoal, Paulo
conta que esse privilégio tinha um outro lado, pois se Deus lhe mostrou o céu, lhe cravou
um dardo na própria carne (2Cor 12,7). Esse dardo servia para que Paulo não se
orgulhasse do arrebatamento e ficasse permanentemente pensando na sua fragilidade,na
sua condição humana e tivesse com isso uma melhor compreensão das situações de homens e mulheres que evangelizava.
   A busca pela compreensão do que seria esse aguilhão é bastante infrutífera. Muitas
opiniões foram dadas, muitas propostas de resposta, mas ficamos ainda no imaginário.
Os escritores ascéticos ocidentais, dentre eles Gregório Magno, sugeriam que tivesse
sido uma dificuldade pessoal na relação da castidade. S. João Crisóstomo explicava
esse sofrimento pelas constantes perseguições dos seus irmãos na carne, os hebreus
(2Cor 11,24). Basílio afirmava tratar-se de uma enfermidade cujas dores o atormentavam
constantemente. Ramsay e outros propuseram alguma enfermidade própria da Ásia
Menor, como a malária, a cegueira ou outra, entre as diversas endemias da época. Há
ainda uma outra corrente de espiritualistas que acreditavam ser uma dor espiritual no
estilo dos místicos, os quais sofriam com o pecado no mundo, com os males presentes
no ser humano os quais se transformam em modos atuais de crucificação do Cristo, na
história de cada época, como acontecia com Francisco de Assis, Tereza d‟Ávila, Frei
Pio de Pietralcina e outros, cuja paixão de Cristo era uma realidade presente.
Acredito que essa última interpretação seja a mais plausível diante da consciência
da missão, da necessidade de evangelizar (1Cor 9,16). A experiência do arrebatamento,
que poderia ter-lhe servido de trunfo ufanista, lhe serviu de compromisso, de
imperativo missionário diante do qual ele, mesmo temendo os perigos na terra, no mar,
dos falsos irmãos, jamais abandonou o ministério (2Cor 11,1-33, esp. vv. 21-29). Seria
simplório admitir que dificuldades na castidade, doenças comuns ou até mesmo a oposição dos judeus tivesse sido uma causa de humilhação, traduzido por um aguilhão na carne. Por outro lado, esse conhecimento “esotérico” conferia uma grande autoridade ao
Apóstolo para proclamar a profecia como um dom maior na edificação das comunidades
cristãs e não a prática de ritos espirituais (cf. 1Cor 13-14). Ele afirma que poderia falar
em línguas mais que todos os cristãos de Corinto (1Cor 14,18).