sábado, 9 de fevereiro de 2013

A Nova Jerusalém: a Cidade de Deus, de Cristo - Parte 09










Arrebatamento 2Cor 12,1-5; Ap 3,1.



“1 É preciso gloriar-me? Por certo não. Todavia mencionarei as visões e as
revelações do Senhor. 
2 Conheço um homem em Cristo que, há quatorze anos foi
arrebatado ao terceiro céu – se no seu corpo, não sei; se fora do seu corpo, não sei
- Deus o sabe; - 
3 Eu sei que esse homem – se no corpo ou fora dele, não sei; Deus
o sabe! – 
4 foi arrebatado até o paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não é permitido
ao homem repetir. 
5 No tocante a esse homem, eu me gloriarei; mas no tocante
a mim, só me gloriarei das minhas fraquezas”  .

    O Apóstolo afirma que há quatorze anos, a contar da data que está escrevendo
essa carta (por volta de 43-44 d.C.), foi arrebatado até o terceiro céu (2Cor 12,2, até o
paraíso (2Cor 12,4). A contagem regressiva nos faz imaginar que esse arrebatamento
teria acontecido em Tarso (At 11,25), depois dos três anos de estada na Arábia (Gl 1,17-
19), ou no início do seu ministério na Antioquia (At 13,2), antes da abertura da missão
aos pagãos.
   Paulo usa uma linguagem apocalíptica do arrebatamento, comum no gênero literário
da visão, na revelação ou conhecimento das coisas do alto. Ele é arrebatado, não
sabe se seu corpo também foi, por isso afirma que só Deus sabe se também o corpo acompanhou
o espírito (2Cor 12,2). A incerteza de como acontece a revelação manifesta
a certeza de que não acontece de modo racional, material, fisicamente palpável. Esse
tipo de revelação acontece no êxtase místico, mas nem por isso deixa de ser verdadeiro
e autêntico.
    Discursar sobre os estágios celestes era uma prática rabínica conhecida. Havia
até o sétimo céu, mas o mais comum era determinar os três primeiros: a atmosférico era
o primeiro, o dos astros era o segundo e a morada de Deus era o terceiro. Aquilo que
Paulo ouviu, nessa transmigração celeste, foram palavras inefáveis, inenarráveis (2Cor
12,4). Segundo os rituais de iniciação nos mistérios, as coisas percebidas nesses estágios não deveriam ser comunicadas aos não-iniciados, visto que não as entenderiam.
Se o arrebatamento era uma questão de glória, honra ou orgulho pessoal, Paulo
conta que esse privilégio tinha um outro lado, pois se Deus lhe mostrou o céu, lhe cravou
um dardo na própria carne (2Cor 12,7). Esse dardo servia para que Paulo não se
orgulhasse do arrebatamento e ficasse permanentemente pensando na sua fragilidade,na
sua condição humana e tivesse com isso uma melhor compreensão das situações de homens e mulheres que evangelizava.
   A busca pela compreensão do que seria esse aguilhão é bastante infrutífera. Muitas
opiniões foram dadas, muitas propostas de resposta, mas ficamos ainda no imaginário.
Os escritores ascéticos ocidentais, dentre eles Gregório Magno, sugeriam que tivesse
sido uma dificuldade pessoal na relação da castidade. S. João Crisóstomo explicava
esse sofrimento pelas constantes perseguições dos seus irmãos na carne, os hebreus
(2Cor 11,24). Basílio afirmava tratar-se de uma enfermidade cujas dores o atormentavam
constantemente. Ramsay e outros propuseram alguma enfermidade própria da Ásia
Menor, como a malária, a cegueira ou outra, entre as diversas endemias da época. Há
ainda uma outra corrente de espiritualistas que acreditavam ser uma dor espiritual no
estilo dos místicos, os quais sofriam com o pecado no mundo, com os males presentes
no ser humano os quais se transformam em modos atuais de crucificação do Cristo, na
história de cada época, como acontecia com Francisco de Assis, Tereza d‟Ávila, Frei
Pio de Pietralcina e outros, cuja paixão de Cristo era uma realidade presente.
Acredito que essa última interpretação seja a mais plausível diante da consciência
da missão, da necessidade de evangelizar (1Cor 9,16). A experiência do arrebatamento,
que poderia ter-lhe servido de trunfo ufanista, lhe serviu de compromisso, de
imperativo missionário diante do qual ele, mesmo temendo os perigos na terra, no mar,
dos falsos irmãos, jamais abandonou o ministério (2Cor 11,1-33, esp. vv. 21-29). Seria
simplório admitir que dificuldades na castidade, doenças comuns ou até mesmo a oposição dos judeus tivesse sido uma causa de humilhação, traduzido por um aguilhão na carne. Por outro lado, esse conhecimento “esotérico” conferia uma grande autoridade ao
Apóstolo para proclamar a profecia como um dom maior na edificação das comunidades
cristãs e não a prática de ritos espirituais (cf. 1Cor 13-14). Ele afirma que poderia falar
em línguas mais que todos os cristãos de Corinto (1Cor 14,18).

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