segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A Nova Jerusalém: a Cidade de Deus, de Cristo - Parte 03







     As medidas tomadas por Esdras e seu grupo foram mais na ordem sociológica e política do que religiosa. O caos social se instaura ao redor de Jerusalém com o repúdio de muitas mulheres e seus filhos. Muitas delas se retiram para a Samaria, umas com seus filhos, mas sem nenhum recurso econômico e outras com seus próprios maridos, os quais não aceitaram a determinação de Esdras.
    O segundo nível de leis da restauração foi o acesso ao templo. Os estrangeiros não poderiam mais passar da parte externa para dentro. Os sacerdotes que desempenhariam as funções seriam exclusivamente sadoquitas, como encontramos na própria especificação de Ezequiel: Os levitas serão a classe de sacerdotes que servirá no templo, eles serão responsáveis pela matança dos animais para o sacrifício e oferecerão a gordura e o sangue (Ez 44,10-31). Esse texto mostra como o sacerdócio levítico foi se impondo na tradição pós-exílica, mas a sua hegemonia foi construída com muitas lutas e revoltas de outros grupos como os de Coré, Datan e Abiran (Nm 16-17)(5).



A Descrição do Templo
    

    Ezequiel recebe a descrição, a localização e as medidas do novo templo através de uma visão (Ez 40-42). As dimensões, as proporções e tudo o que concerne ao mesmo estava de acordo com uma nova visão de povo, de culto e sacerdócio, mas a inspiração e o detalhamento ele encontra no livro dos Reis (1Rs 6-7)(6).
a) Quanto ao povo, as novas regras seriam claras: nenhum estrangeiro, incircunciso de coração (cf. Dt 30,6) e incircunciso de corpo entraria mais no átrio interno, passando da balaustrada (Ez 44,9);
b) Quanto ao culto seria executado segundo as determinações da pureza, do con-trole da origem, com medidas e pesos fixos e datas precisas (Ez 45,13-25);
c) Quanto ao sacerdócio seria exclusivo dos levitas (Ez 44,10-31). O sacerdócio, antes do exílio era uma função exercida por muitos, dentre os filhos de Aarão (cf. Ex 28,1).
Esses três tópicos seriam suficientes para marcar uma nova etapa na história de um povo. Até o exílio, o povo de Israel agregava gente de outras culturas e etnias sob a égide de Yahweh (cananeus, egípcios, moabitas e outros) formando o povo hebreu. Depois do exílio, surge o povo judeu, não mais caracterizado como o habitante de Judá, mas como uma raça que integra exclusivamente a linhagem genética estabelecida pela reforma de Esdras.
    


    As visões sucessivas do profeta a respeito das medidas do templo foram sendo passadas paulatinamente no vigésimo quinto ano do exílio (Ez 40,1) indicando que ain-da faltavam mais vinte e seis anos para a libertação, pois o exílio durou cinqüenta e um anos, sem contar todos os conflitos para o começo das obras de reconstrução que atra-sou a sua conclusão em algumas décadas (cf. Esd 5-7).
As medidas do templo seguem parâmetros semelhantes aos anteriores, isto é, do primeiro templo salomônico (1Rs 6-7). Keil e Delitzsch afirmam que Ezequiel separa a cidade do templo. O templo deve estar no topo da montanha santa, no centro de Canaã, numa reconstrução tipificada no primeiro templo de Salomão, enquanto a Jerusalém celeste não teria o templo, pois não precisa dele(7).
5 ARTUSO, V., A revolta de Coré, Datan e Abiran contra Moisés e Aarão, tese de Doutorado na PUC-Rio, 2007. O autor apresenta uma análise narrativa dos conflitos e dos castigos impostos aos revoltosos em virtude de sua não aceitação da exclusividade do sacerdócio levítico, imposto à força por Moisés e Aarão.
6 KEIL, C.V., DELITZSCH, F., “Ezequiel and Daniel”, Commentary on the Old Testament, v.9, p. 342-381.



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