quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A REGENERAÇÃO DO SER HUMANO

 (Extraído de "O Homem Espiritual")





O conceito de regeneração conforme o encontramos na Bíblia fala do processo de passar da morte para a vida. O espírito de um homem antes da regeneração está afastado de Deus e é considerado morto, porque a morte é a dissociação da vida e de Deus, que é a fonte da vida. Em conseqüência, a morte é a separação de Deus. O espírito do homem está morto e por conseguinte é incapaz de ter comunhão íntima com Ele. Ou sua alma o controla e o submerge em uma vida de idéias e imaginações, ou os desejos carnais e os costumes de seu corpo o estimulam e reduzem a sua alma à escravidão.
O espírito do homem tem que ser avivado porque nasceu morto. O novo nascimento de que falou o Senhor Jesus com Nicodemos é o novo nascimento do espírito. É obvio que não é um nascimento físico como acreditava Nicodemos, nem tampouco anímico. Devemos nos fixar cuidadosamente em que o novo nascimento transmite a vida de Deus ao espírito do homem. Posto que Cristo expiou por nossa alma e destruiu o princípio da carne, os que estamos unidos a Ele participamos de sua vida de ressurreição. Fomos unidos a Ele em sua morte; por conseguinte, é em nosso espírito onde colhemos primeiro o cumprimento de sua vida de ressurreição. O novo  nascimento é algo que acontece totalmente no espírito: não tem nenhuma relação com a alma ou o corpo.
O que faz que o homem seja único na criação de Deus não é que possui uma alma, mas sim que tem um espírito que, unido à alma, constitui o homem. Esta união faz do homem um ser extraordinário no universículo. A alma do homem não está relacionada diretamente com Deus. Segundo a Bíblia é seu espírito que tem relação com Deus. Deus é Espírito, e em conseqüência todos os que o adoram devem adorá-lo em espírito. Só o espírito pode ter comunicação íntima com Deus. Só o espírito pode adorar ao Espírito. Por isso encontramos na Bíblia frases como:
«servindo com meu espírito» (Rm. 1:9; 7:6; 12:11);

«conhecendo por meio do espírito» (1 Co. 2:9-12);

«adorando em espírito» (Jo. 4:23, 24);

«recebendo em espírito a revelação de Deus» (Ap. 1:10; 1 Co. 2:10).

Em vista deste fato, recordemos que Deus decretou que tratará com o homem unicamente por meio de seu espírito e que terá que levar a cabo seus conselhos por meio do espírito do homem. Se assim tem que ser, que necessário é para o espírito do homem continuar em constante e viva união com Deus, sem cair nem por um momento na desobediência às leis divinas, seguindo os sentimentos, desejos e ideais da alma externa. Do contrário, se imporá a morte de modo imediato, e o espírito será privado de sua união com a vida de Deus. Isto não significa que o homem já não tenha um espírito. Simplesmente quer dizer, como já indicamos anteriormente, que o espírito renuncia a sua elevada posição em favor da alma. Sempre que o homem interior de uma pessoa presta atenção aos ditados do homem exterior, perde contato com Deus e se torna espiritualmente morto. «Estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais outrora andastes» ao «fazendo a vontade da carne e dos pensamentos» (Ef. 2:1-3).
A vida de uma pessoa não regenerada está quase por inteira governada pela alma. Pode estar vivendo com temor, curiosidade, alegria, orgulho, piedade, prazer, delícia, estranheza, vergonha, amor, arrependimento, gozo. Ou pode estar cheia de ideais, imaginações, superstições, dúvidas, suposições, interrogações, induções, deduções, análise, introspecções. Ou pode ser impulsionada — pelo desejo de poder, reconhecimento social, riqueza, liberdade, posição, fama, glória, conhecimento — a tomar decisões atrevidas, a entrar pessoalmente em compromissos, a expressar opiniões obstinadas, ou inclusive a resistir a testes pacientemente. Todas estas coisas e outras similares são simplesmente manifestações das três principais funções da alma, que são a emoção, a mente e a vontade. Acaso a vida não se compõe predominantemente destas coisas? Mas nunca poderão levar à regeneração. Fazer penitência, sentir-se aflito pelo pecado, derramar lágrimas, inclusive fazer votos, não leva à salvação. A confissão, a decisão e muitos outros atos religiosos nunca podem nem têm que ser interpretados como um novo nascimento. O julgamento racional, a compreensão inteligente, a aceitação mental, ou a busca do bom, do belo e do autêntico, são simplesmente atividades anímicas enquanto não se alcança e se sacuda o espírito. Embora possam servir bem como criados, as idéias, sentimentos e decisões do homem não podem servir como donos e por isso são secundários neste assunto da salvação. Daí que a Bíblia nunca considera que o novo nascimento seja tratar com severidade o corpo, um sentimento impulsivo, a exigência da vontade ou uma reforma através da compreensão mental. O novo nascimento bíblico acontece em uma área muito mais profunda que o corpo ou a alma humana, sim, é no espírito do homem onde recebe a vida de Deus por meio do Espírito Santo.
O escritor de Provérbios nos diz que «o espírito do homem é a candeia do Senhor» (20:27). No renascimento, o Espírito Santo entra no espírito do homem e o aviva como se acendesse um abajur. Este é o «espírito novo» mencionado em Ezequiel 36:26. O velho espírito morto é avivado quando o Espírito Santo lhe transmite a vida incriada de Deus.
Antes da regeneração, a alma do homem controla a seu espírito, enquanto seu próprio «eu» governa a sua alma e sua paixão governa a seu corpo. A alma se converteu na vida do corpo. Na regeneração, o homem recebe a própria  vida de Deus em seu espírito e nasce de Deus. Em conseqüência disso, agora o Espírito Santo governa o espírito do homem, que, por sua vez, é equipado para recuperar o controle sobre sua alma e, por meio da alma, governar seu corpo. Como o Espírito Santo se converte na vida do espírito do homem, este se converte na vida de todo o ser do homem. O espírito, a alma e o corpo são restaurados segundo o propósito original de Deus para toda pessoa nascida de novo.
Então o que terá que fazer para nascer de novo em espírito? Sabemos que o Senhor Jesus morreu em lugar do pecador. Sofreu em seu corpo na cruz por todos os pecados do mundo. Deus considera a morte do Senhor Jesus como a morte de todas as pessoas do mundo. Sua humanidade santa sofreu a morte por toda a humanidade ímpia. Mas há algo que o homem mesmo tem que fazer.
Tem que usar sua fé para comprometer-se — seu espírito, alma e corpo — na união com o Senhor Jesus. Quer dizer, tem que considerar a morte do Senhor Jesus como sua própria morte e a ressurreição do Senhor Jesus como sua própria ressurreição. Este é o significado de João 3:16: «Todo aquele que nele (literalmente) crê, não pereça mas tenha vida eterna.» O pecador deve ter fé e acreditar no Senhor Jesus. Ao fazê-lo, se une a Ele em sua morte e ressurreição e recebe a vida eterna (Jo. 17:3) — que é a vida espiritual — para sua regeneração.
Tomemos cuidado de não separar a morte do Senhor Jesus como nosso substituto de nossa morte com Ele. Certamente que o farão os que põem ênfase na compreensão mental, mas na vida espiritual estes dois fatos são inseparáveis. A morte substitutiva e a morte com Ele se distinguem mas não se podem separar. Quem acredita na morte do Senhor Jesus como seu substituto foi unido a Ele em sua morte (Rm. 6:2). Para mim, acreditar na obra substitutiva do Senhor Jesus é acreditar que já fui castigado nEle. O castigo de meu pecado é a morte, mas o Senhor Jesus sofreu a morte por mim; por conseguinte morri nele. Não pode haver salvação de outro modo. Dizer que Ele morreu por mim quer dizer que eu já fui castigado e morri nele. Todo o que acredita nesse fato experimentará sua realidade.
Assim, devemos dizer que a fé pela qual um pecador crê na morte do Senhor Jesus como substituto é «acreditar por dentro» em Cristo e como conseqüência está unido com Ele. Embora uma pessoa possa estar preocupada só pelo castigo do pecado e não pelo poder do pecado, mesmo assim sua união com o Senhor é a posse comum que compartilha com todos os que crêem em Cristo. Quem não está unido ao Senhor, ainda não acreditou, e em conseqüência não tem parte com o Senhor.
Ao acreditar, o que crê é unido ao Senhor. Estar unido com Ele quer dizer experimentar tudo o que Ele experimentou. Em João 3 nosso Senhor nos explica como somos unidos a Ele. Somos unidos a Ele em sua crucificação e morte (vs. 14,15). No mínimo, a posição de todo crente é de que foi unido ao Senhor em sua morte, mas é evidente que «se temos sido unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente também o seremos na semelhança da sua ressurreição» (Rm. 6:5). Por isso, para o que crê na morte do Senhor Jesus como substituto, sua posição é igualmente a de ter ressuscitado com Cristo. Apesar de que possivelmente não experimente ainda plenamente o significado da morte do Senhor Jesus, mesmo assim Deus o tem feito viver junto com Cristo e ele obteve uma nova vida no poder da ressurreição do Senhor Jesus. Este é o novo nascimento.
Devemos nos guardar de insistir em que um homem não nasceu de novo se não teve a experiência da morte e da ressurreição com o Senhor. A Bíblia declara já regenerado a todo o que crê no Senhor Jesus. «Todos os que o receberam, os que acreditaram em seu nome... nasceram de Deus» (Jo. 1:12, 13). Fique entendido que ser ressuscitado junto com o Senhor não é uma experiência prévia ao novo nascimento. Nossa regeneração é nossa união com o Senhor em sua ressurreição e também em sua morte. Sua morte terminou com nossa vida pecaminosa, e sua ressurreição nos deu uma vida nova e nos iniciou na vida de cristão. O apóstolo nos assegura que «nascemos de novo a uma esperança viva por meio da ressurreição do Jesus Cristo dos mortos» (1 Pe. 1:3). Indica que todo cristão nascido de novo já foi ressuscitado no Senhor. Entretanto, o apóstolo Paulo em Filipenses ainda insiste conosco a experimentarmos «o poder de sua ressurreição» (3:10). Muitos cristãos nasceram de novo e em conseqüência foram ressuscitados com o Senhor, embora fiquem longe da manifestação do poder da ressurreição.
Assim, não confundam a posição com a experiência. No momento em que uma pessoa acredita no Senhor Jesus, pode ser muito fraca e ignorante, mas, mesmo assim, Deus a colocou na perfeita posição de ser considerada morta, ressuscitada e levantada com o Senhor. Quem é aceito em Cristo é tão aceitável como Cristo. Esta é a posição. E sua posição é: tudo o que Cristo experimentou é seu. E a posição o faz experimentar o novo nascimento, porque não depende do grau de seu conhecimento experimental da morte, da ressurreição e da ascensão do Senhor Jesus, mas sim de se ter crido nele ou não. Inclusive, se um crente é em sua experiência totalmente ignorante do poder de ressurreição de Cristo (Fp. 3:10),  Ele o tem feito viver junto com Cristo, o ressuscitou com Ele e o assentou com Ele nos lugares celestiais (Ef. 2:5, 6).
Ainda há outro tema a respeito da regeneração a que devemos prestar muita atenção: que temos muito mais do que tínhamos em Adão antes da queda. Naquele dia Adão possuía um espírito, mas era criado por Deus. Não era a vida incriada simbolizada pela árvore da vida. Não havia absolutamente nenhuma relação vital entre Adão e Deus. Foi chamado «o filho de Deus» de forma  similar à maneira em que o são os anjos, porque foi criado diretamente por Deus. Quem crê no Senhor Jesus, entretanto, «nasce de Deus» (Jo. 1:12,13). Conseqüentemente, há uma relação vital. Um filho herda a vida de seu pai. Nós nascemos de Deus, e por conseguinte temos sua vida (2 Pe. 1:4). Se Adão houvesse recebido a vida que Deus oferecia na árvore da vida, imediatamente teria obtido a vida eterna incriada de Deus. Seu espírito veio de Deus e por isso é eterno. A maneira como este espírito eterno viverá depende de como a pessoa considere a ordem de Deus e da escolha que faça. A vida que nós cristãos obtemos na regeneração é a mesma que Adão poderia ter tido, mas que nunca teve: a vida de Deus. A regeneração não somente resgata das trevas a ordem do espírito e da alma do homem; também proporciona ao homem a vida sobrenatural de Deus.
O espírito caído e escurecido do homem é avivado pelo fortalecimento do Espírito Santo ao aceitar a vida de Deus. Isto é o novo nascimento. A base sobre a qual o Espírito Santo pode regenerar o homem é a cruz (Jo. 3:14, 15). A vida eterna anunciada em João 3:16 é a vida de Deus que o Espírito Santo planta no espírito do homem. Posto que esta vida é de Deus e não pode morrer, depreende-se que todo  nascido de novo que possui esta vida podemos dizer que possui a vida eterna. Como a vida de Deus desconhece por completo a morte, a vida eterna no homem não morre jamais.
Estabelece-se uma relação vital com Deus no novo nascimento. Se parece com o antigo nascimento da carne, que é uma vez e para sempre. Uma vez que o homem nasceu de Deus, Deus nunca poderá considerá-lo como não nascido dEle. Por infinita que seja a eternidade, esta relação e esta posição não podem ser anuladas. Isto é porque o que um crente recebe no novo nascimento não depende de uma busca progressiva, espiritual e santa, mas sim é puro dom de Deus. O que Deus outorga é a vida eterna. Não há nenhuma possibilidade de que esta vida e esta posição sejam anuladas.
Receber a vida de Deus no novo nascimento é o ponto de partida do andar com Cristo, um mínimo absoluto para o crente. Os que ainda não creram na morte do Senhor Jesus nem tenham recebido a vida sobrenatural (que não podem possuir de maneira natural) estão mortos aos olhos de Deus, por muito religiosos, morais, eruditos ou zelosos que possam ser. Os que não têm a vida de Deus estão mortos.
Para os que nasceram de novo há uma grande potencialidade para o crescimento espiritual. A regeneração é o primeiro passo evidente em um desenvolvimento espiritual. Embora a vida recebida seja perfeita, precisa alcançar maturidade. No momento do novo nascimento, a vida não pode estar já plenamente desenvolvida. É como uma fruta recém formada: a vida é perfeita, mas ainda é imatura. Por isso há uma ilimitada possibilidade de crescer. O Espírito Santo pode levar a pessoa a uma vitória total sobre o corpo e a alma.


 

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