quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O POVO CIGANO

ORIGEM, RELIGIÃO E IDIOMA


A história do povo cigano ou rom é ainda hoje objeto de controvérsia. Existem várias razões que explicam a obscuridade que envolve a esse assunto. Em primeiro lugar, a cultura cigana é fundamentalmente ágrafa e despreocupada por sua história, de maneira que não foram conservados por escrito sua procedência. Sua história foi estudada sempre pelos não ciganos, com frequência através de um cariz fortemente etnocentrista. Os primeiros movimentos migratórios datam do século X, de sorte que muita informação se perdeu, se é que alguma vez existiu. É importante assinalar também que os primeiros grupos de ciganos chegados a Europa ocidental fantasiavam acerca de suas origens, atribuindo-se uma procedência misteriosa e lendária, em parte como estratégia de proteção frente a uma população em que eram minoria, em parte como posta em cena de seus espetáculos e atividades.

Outro problema que se deve ter em conta é que a inserção (ou não) na comunidade cigana é uma questão disputada. Não existe uma delimitação clara dentro da própria comunidade (nem fora) acerca de quem é cigano e quem não o é.

As principais fontes de informação são os testemunhos escritos, as análises lingüísticas e a genética populacional.

OS CIGANOS E A RELIGIÃO
Apesar de guardarem a sete chaves o segredo de sua verdadeira religião e os preceitos religiosos que atendem as suas tradições, os ciganos-até para se defenderem das perseguições aos considerados pagãos ou infiéis costumavam e ainda adotam o costume de se converterem a religião dominante do pais onde fixam suas moradias. Assim, como a maior parte dos ciganos vivem em paises católicos, eles se declaram seguidores da fé católica, o que sem duvida facilita suas andanças por terras européias e de muitos paises católicos das Américas. Se, além de atormentados e acossados por seus costumes impares, eles também acumulassem uma perseguição por causa da religião, com certeza eles teriam suas vidas muitíssimo mais complicadas.
Na verdade, porém,os ciganos passaram por um processo sincrético, procurando fundir suas crenças e dinvidades das terras de origem com outras doutrinas, tal como fizeram os povos africanos, tornados escravos, e que eram severamente castigados pelos feitores em fazendas brasileiras se cultuassem suas verdadeiras divindades. Que fizeram, então? Colocaram santos católicos a modo de disfarce de suas reais divindades, os orixás, apaziguando a ira dos feitores e dos senhores de engenho e ganhando inclusive, de certa maneira, a simpatia dos padres da época, tão íntimos dos donos das terras afinal, aquele povo infiel tinha cedido aos apelos da verdadeira fé católica. À guisa de um pequeno adendo podemos acrescentar que esta é a origem da Umbanda no Brasil, agremiação religiosa que enfeixa fundamentos africanos autênticos com preceitos e imagens de santos católicos, a diferença do candomblé, que é o culto africano sem nenhuma miscigenação, ou seja, verdadeiro, puro, tal como se originou na mãe-Africa.
Os ciganos, apesar de se declararem fiéis seguidores da fé católica, adotando muitos de seus preceitos, mandamentos e festas religiosas, como a comemoração profundamente respeitosa da Semana Santa, também traziam suas divindades femininas e masculinas pagãs e que não se acomodavam as religiões cristãs. Então que fizeram? O mesmo que os africanos, indo buscar numa figura feminina considerada santa e cristã católica, Sara, ou Santa Sara, sua mais venerada padroeira. No Brasil, Nossa Senhora de Aparecida, em razão da pele negra como Santa Sara, recebe homenagens e devoção do povo cigano, que festejam o dia 12 de outubro, dia de N. S. de Aparecida como um dia de festa nacional também para os ciganos e no dia 24 de maio festejam a sua maior padroeira, Santa Sara de Kali.
Eles porém continuam acreditando em outros princípios, como o da reencarnação, por exemplo, que absolutamente não se enquadra, pelo menos oficialmente, nos dogmas católicos. Crendo na reencarnação aceitam o mundo dos espíritos, bons e maus, a que rendem oferendas, nas forças da natureza como manifestações de divindades, na roda dos círculos cármicos e na ausência de um paraíso e de um inferno determinados como o destino final de toda a alma vivente na face da terra após a morte do corpo físico. Também por acreditarem que o espírito volta em nova vestimenta carnal e nova vida ou encarnação para acertarem dividas pendentes, procuram viver da melhor maneira possível.
O povo cigano acredita em um só Deus, pai e soberano doador do livre arbítrio a todos os seus filhos, indistintamente. Conhecem a lei de causa e efeito, da ação e reação, assumindo suas dores e sofrimentos como geradas por eles mesmos, ou seja, que o ser humano sofre em razão de seus incorretos pensamentos, sentimentos, palavras ou ações. Desta maneira suas leis buscam as correções para os desacertos às leis de Deus. Sob o ponto de vista religioso é um povo austero e severo, punindo duramente os infratores das leis humanas e divinas. Com isto, queremos dizer que eles não transferem para Deus a responsabilidade pelo castigo por seus erros e faltas. Deus é venerado sempre por sua magnanimidade, grandeza e fonte eterna e inesgotável de perdão.


O IDIOMA
Uma das maneiras de os ciganos se manterem unidos, vivos, preservando suas tradições é o idioma universalmente falado por eles, o romanê ou rumanez, que é uma linguagem própria e exclusiva. Este idioma se presta ao reconhecimento correto entre eles, ou seja, quando um indivíduo encontra outro, somente terão certeza de que ambos são ciganos se falarem o romanê.
É expressamente proibido ensinar o romanê para não-cigano e os ciganos fiéis às tradições, que prezam sua origem, seus irmãos de raça, sabem disto. Portanto, quando alguém que se diz cigano quiser ensinar o romanê, geralmente as custas de dinheiro, ou então passar os segredos e as íntimas particularidades da vida cigana é bom ter cuidado, pois com certeza, ele ou ela não é uma autêntico cigano. Ele até poderá ser cigano de origem, mais não mais será um cigano de alma capaz de manter a honradez de seus antepassados e contemporâneos autênticos.
Dicionário cigano? Pode ser que um dia estas pessoas de vida tão reservada quanto às suas intimas particularidades desistam desse estilo de ser e estar, abram as fronteiras de seus acampamentos e aceitem sem reservas a miscigenação. Então surgirão dicionários ciganos. Contudo, será que ainda existirão ciganos?
Somente o tempo será capaz de responder a essas perguntas. Todavia,que tempo será este? Um século? Um milênio? Será necessário, sem duvida, infelizmente, um longo período de tempo para que os homens se vejam, se tratem e se respeitem como verdadeiros irmãos. Será um tempo em que a fraternidade será total,plena e espontaneamente aplicada,quando não haverá mais guerras,ambição despudorada,a necessidade de ocultar um idioma, de estabelecer limites, de guardar fronteiras. Tempo em que haverá talvez uma única religião para unir todos sem distinções ao mesmo e único Pai, a pobreza e a miséria extirpadas do planeta e todas as grandezas do mundo generosa e fartamente distribuídas para todas
as pessoas.

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